uma mancha indistinta
na voracidade dos dias.
uma mancha indistinta,
como algo pelo qual
passamos a grande velocidade,
incapazes de percepcionar
a sua verdadeira forma.
uma mancha indistinta,
sobre cuja memória
(quando ela ainda resta)
projectamos a nossa própria concepção
daquilo que ela seria.
uma mancha indistinta,
cujo verdadeiro sentido
entra no campo das hipóteses.
uma mancha indistinta,
que porventura não o seria,
se nos detivéssemos a observá-la
na voracidade dos dias.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
domingo, 29 de junho de 2008
sexta-feira, 27 de junho de 2008
uso o fio de ariadne para tecer a rede
em que me suporto e espalho nesta
obra translúcida os fragmentos que me formam.
não presto juramento a bandeiras, queimo-as
e à raça e género desafio preconceitos.
não me permito os dogmas de nenhuma religião,
não nasci para obedecer sem questionar.
prefiro a solidão das falésias ao
conforto do rebanho, e em tudo o que crio
tento projectar essa sombra.
esses puros momentos arrancados às garras
da mediocridade, do vazio do quotidiano
em que raiva, dor, desejo, paixão se erguem
num clamor mil vezes superior
ao murmúrio enlouquecedor das horas perdidas
a sobreviver. essas horas cuja mancha
indistinta em que se tornam jamais
permitem ver o meu contorno.
em que me suporto e espalho nesta
obra translúcida os fragmentos que me formam.
não presto juramento a bandeiras, queimo-as
e à raça e género desafio preconceitos.
não me permito os dogmas de nenhuma religião,
não nasci para obedecer sem questionar.
prefiro a solidão das falésias ao
conforto do rebanho, e em tudo o que crio
tento projectar essa sombra.
esses puros momentos arrancados às garras
da mediocridade, do vazio do quotidiano
em que raiva, dor, desejo, paixão se erguem
num clamor mil vezes superior
ao murmúrio enlouquecedor das horas perdidas
a sobreviver. essas horas cuja mancha
indistinta em que se tornam jamais
permitem ver o meu contorno.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
os murmúrios cessaram com a distância.
a língua rochosa que penetrava o mar,
e na qual eu me sentava, já não mais é
a mesma.
estou ausente da nocturna brisa de verão
que trazia o nevoeiro para me embrenhar
no cheiro a maresia, e sei
que a areia não guardou as minhas
pegadas.
já não almejo o infinito como destino
nem vejo os contornos de terras prometidas
a desenharem-se no horizonte.
lancei o meu desdém ao passado dourado
e olho com sarcasmo
o futuro radioso.
nesta caminhada solitária onde deixo
um trilho de cadáveres a assinalar
a passagem, sei que estarei
para sempre só no trajecto
da descoberta.
esta melancolia será sempre a barreira,
a muralha intransponível, a chaga,
do renegado.
vou deixando os símbolos nestes caminhos
calcorreados na constante incerteza,
carregando a dúvida como única
verdade.
que me acompanha na subida ao promontório?
- ascendo vazio de despojos, sem esplendor,
e na queda não possuo
nem lastro nem pára-quedas.
celebro-me a mim na ausência
de ser eu próprio, rei
sem coroa, divindade
sem discípulos.
e para onde conduz o trajecto
desta diáfana forma de vida
onde todos os destinos parecem rumar
em direcção ao esquecimento apenas
evitável por glórias vãs?...
a língua rochosa que penetrava o mar,
e na qual eu me sentava, já não mais é
a mesma.
estou ausente da nocturna brisa de verão
que trazia o nevoeiro para me embrenhar
no cheiro a maresia, e sei
que a areia não guardou as minhas
pegadas.
já não almejo o infinito como destino
nem vejo os contornos de terras prometidas
a desenharem-se no horizonte.
lancei o meu desdém ao passado dourado
e olho com sarcasmo
o futuro radioso.
nesta caminhada solitária onde deixo
um trilho de cadáveres a assinalar
a passagem, sei que estarei
para sempre só no trajecto
da descoberta.
esta melancolia será sempre a barreira,
a muralha intransponível, a chaga,
do renegado.
vou deixando os símbolos nestes caminhos
calcorreados na constante incerteza,
carregando a dúvida como única
verdade.
que me acompanha na subida ao promontório?
- ascendo vazio de despojos, sem esplendor,
e na queda não possuo
nem lastro nem pára-quedas.
celebro-me a mim na ausência
de ser eu próprio, rei
sem coroa, divindade
sem discípulos.
e para onde conduz o trajecto
desta diáfana forma de vida
onde todos os destinos parecem rumar
em direcção ao esquecimento apenas
evitável por glórias vãs?...
quinta-feira, 29 de maio de 2008
shhh!!! repousa
deixa que hipnos traga
o beijo do esquecimento,
o abandono, o repouso,
o breve instante
da queda.
deixa-te seduzir por esta
canção encantatória que
ao longe
as ondas sussurram,
ouve com atenção
e repara
no murmúrio lúgubre
das rochas acariciadas
pelo mar.
deixa-te levar
às longínquas costas
em busca
de novas fronteiras
para transpor.
empreende a viagem
ao fim da noite
numa caçada selvagem
nessa floresta onde és
caça e caçador.
ergue-te para a beleza
dos primeiros raios da aurora
a banharem
a tua redescoberta
nudez.
shhh!!! não acordes ainda
fica um pouco mais
resiste à tentação do despertar
e foge
em direcção ao último reduto.
shhh!!! não vás ainda
pelo menos aqui
ouve os deuses esquecidos
pronunciarem o teu nome
e quando partires
deixa uma única lágrima
rolar-te do rosto até
este solo
onde ainda buscas
refúgio...
(banda sonora: asva - "what you don't know is frontier")
deixa que hipnos traga
o beijo do esquecimento,
o abandono, o repouso,
o breve instante
da queda.
deixa-te seduzir por esta
canção encantatória que
ao longe
as ondas sussurram,
ouve com atenção
e repara
no murmúrio lúgubre
das rochas acariciadas
pelo mar.
deixa-te levar
às longínquas costas
em busca
de novas fronteiras
para transpor.
empreende a viagem
ao fim da noite
numa caçada selvagem
nessa floresta onde és
caça e caçador.
ergue-te para a beleza
dos primeiros raios da aurora
a banharem
a tua redescoberta
nudez.
shhh!!! não acordes ainda
fica um pouco mais
resiste à tentação do despertar
e foge
em direcção ao último reduto.
shhh!!! não vás ainda
pelo menos aqui
ouve os deuses esquecidos
pronunciarem o teu nome
e quando partires
deixa uma única lágrima
rolar-te do rosto até
este solo
onde ainda buscas
refúgio...
(banda sonora: asva - "what you don't know is frontier")
quarta-feira, 21 de maio de 2008
sei que não temes a chegada da noite
e o que ela traz. a hora
em que o teu rosto se transfigura em mil desejos
de uma liberdade indizível, e vagueias
como um réptil em busca de calor inebriado
pelo odor a sangue que paira no ar.
conheço esses anseios, dissimulados
sob a fina camada de brilho,
que aguardam o momento.
reconheço em ti esse ensejo de
à bruxuleante luz das chamas
matares o teu irmão quando devias
dilacerar a garganta do carcereiro.
sei que não entenderás esta dor
até à alvorada
quando os primeiros raios de sol
penetrarem a caverna
e chorares pela noite que ocultava
a tua bestialidade.
e o que ela traz. a hora
em que o teu rosto se transfigura em mil desejos
de uma liberdade indizível, e vagueias
como um réptil em busca de calor inebriado
pelo odor a sangue que paira no ar.
conheço esses anseios, dissimulados
sob a fina camada de brilho,
que aguardam o momento.
reconheço em ti esse ensejo de
à bruxuleante luz das chamas
matares o teu irmão quando devias
dilacerar a garganta do carcereiro.
sei que não entenderás esta dor
até à alvorada
quando os primeiros raios de sol
penetrarem a caverna
e chorares pela noite que ocultava
a tua bestialidade.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
reconheço essas asas que me exibes
com as suas plumas onde a melancolia
e o desejo se entrelaçam criando padrões
de sonho e desespero.
reconheço o desenho dessas feridas que me mostras
e sei em que falha geográfica as conquistaste,
em que condições, em que momentos, quando desejaste
que tudo cessasse num derradeiro beijo.
estas árduas conquistas, breves triunfos arrancados
às mãos de uma perpétua agonia, aqui e ali
entrecortada pelo som de gargalhadas que pulverizam
todas as ameaças de derrota.
sei onde foste buscar a força que te mantém
irredutível no voto de resistir contra toda
a ânsia de rendição à noite final.
caminho como os lobos, a uivar à lua os sonhos
que uma maldição se encarregou de negar
e observo furtivamente, olhos lampejando de ódio,
a realização do que me negam.
sou um deus solitário de uma religião esquecida
com uma raiva por saciar de mil holocaustos.
do tempo assisto à passagem, escondido, dissimulado,
aguardo, aguardo a chegada do grande cisma
quando o desespero fenderá as portas
da minha prisão e a ânsia de sangue
erguer a cabeça e vaguear livre.
com as suas plumas onde a melancolia
e o desejo se entrelaçam criando padrões
de sonho e desespero.
reconheço o desenho dessas feridas que me mostras
e sei em que falha geográfica as conquistaste,
em que condições, em que momentos, quando desejaste
que tudo cessasse num derradeiro beijo.
estas árduas conquistas, breves triunfos arrancados
às mãos de uma perpétua agonia, aqui e ali
entrecortada pelo som de gargalhadas que pulverizam
todas as ameaças de derrota.
sei onde foste buscar a força que te mantém
irredutível no voto de resistir contra toda
a ânsia de rendição à noite final.
caminho como os lobos, a uivar à lua os sonhos
que uma maldição se encarregou de negar
e observo furtivamente, olhos lampejando de ódio,
a realização do que me negam.
sou um deus solitário de uma religião esquecida
com uma raiva por saciar de mil holocaustos.
do tempo assisto à passagem, escondido, dissimulado,
aguardo, aguardo a chegada do grande cisma
quando o desespero fenderá as portas
da minha prisão e a ânsia de sangue
erguer a cabeça e vaguear livre.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
vagueamos na penumbra perseguidos
pela majestosa altivez do que fomos
projectando sombras cuja verdade
não aceitamos.
que tortuosos labirintos somos levados a percorrer
até aceitarmos, já sem resposta, a derrota infligida
de semblante baixo, sonhos abandonados, joelhos flectidos!
agora, que a resistência cede o seu lugar ao desespero,
e a noite vai chegando com o cansaço que se insinua,
repousa uma última vez junto ao umbral para o jardim
e chora perante a visão do inalcançavel.
partimos ao crepúsculo, cabeça baixa, enfileirados para o esquecimento.
quando chegar a aurora, as nossas pegadas na areia
já há muito terão sido apagadas pelo vento...
pela majestosa altivez do que fomos
projectando sombras cuja verdade
não aceitamos.
que tortuosos labirintos somos levados a percorrer
até aceitarmos, já sem resposta, a derrota infligida
de semblante baixo, sonhos abandonados, joelhos flectidos!
agora, que a resistência cede o seu lugar ao desespero,
e a noite vai chegando com o cansaço que se insinua,
repousa uma última vez junto ao umbral para o jardim
e chora perante a visão do inalcançavel.
partimos ao crepúsculo, cabeça baixa, enfileirados para o esquecimento.
quando chegar a aurora, as nossas pegadas na areia
já há muito terão sido apagadas pelo vento...
quarta-feira, 30 de abril de 2008
na ausência povoei o meu mundo com monstros,
habituei os olhos à escuridão, especializei-me
na construção das muralhas desta cidadela
que jamais alguém ousa violar.
a única porta para o refúgio dirige o olhar
para o abismo em cujo promontório aguardo
a chegada do seu anjo, observando
atentamente a negrura imóvel na esperança
de ver a sua chama irromper.
mas as profundezas repousam na sua imobilidade alheias
a quaisquer anseios ou sonhos.
resta o bálsamo da misantropia, envenenado como poucos,
como companhia nestas reflexões nocturnas.
viro as costas à noite abissal, furioso
com a solidão e o silêncio que assombram
os corredores que percorro até ao átrio da minha fortaleza.
ensandecido derrubo a muralha e constato
que há muito me tornei invisível...
habituei os olhos à escuridão, especializei-me
na construção das muralhas desta cidadela
que jamais alguém ousa violar.
a única porta para o refúgio dirige o olhar
para o abismo em cujo promontório aguardo
a chegada do seu anjo, observando
atentamente a negrura imóvel na esperança
de ver a sua chama irromper.
mas as profundezas repousam na sua imobilidade alheias
a quaisquer anseios ou sonhos.
resta o bálsamo da misantropia, envenenado como poucos,
como companhia nestas reflexões nocturnas.
viro as costas à noite abissal, furioso
com a solidão e o silêncio que assombram
os corredores que percorro até ao átrio da minha fortaleza.
ensandecido derrubo a muralha e constato
que há muito me tornei invisível...
terça-feira, 22 de abril de 2008
um cheiro a tabaco e café a exalar
de bocas alheias, misturado
com o pertinente odor de suor,
ressequido vezes sem conta,
assalta-me as narinas ao chegar.
dentro de breves momentos o ruído
das máquinas em marcha tornar-se-á presente
até ao ponto de se fundir num murmúrio
constante, que nos entorpece até parecer
que toda a beleza se pôs em fuga
e que já nem a desesperada centelha,
que se tenta orientar neste labirinto, consegue
encontrar uma cadência à qual se agarrar,
como se a música que ainda conseguisse criar,
apesar da sua desarmonia, fosse
uma réstia de esperança no meio
da fealdade...
de bocas alheias, misturado
com o pertinente odor de suor,
ressequido vezes sem conta,
assalta-me as narinas ao chegar.
dentro de breves momentos o ruído
das máquinas em marcha tornar-se-á presente
até ao ponto de se fundir num murmúrio
constante, que nos entorpece até parecer
que toda a beleza se pôs em fuga
e que já nem a desesperada centelha,
que se tenta orientar neste labirinto, consegue
encontrar uma cadência à qual se agarrar,
como se a música que ainda conseguisse criar,
apesar da sua desarmonia, fosse
uma réstia de esperança no meio
da fealdade...
quarta-feira, 16 de abril de 2008
o desassossego visitou-te à noite
enquanto te detinhas nos textos passados
cujas palavras, arrancadas à vida,
repousam agora no templo do esquecimento.
os olhos estavam húmidos no regresso à cama
traindo a mágoa que te tinha assaltado
ao releres os relatos das desventurosas viagens.
no dia seguinte uma fúria ferida anunciou-se
ao reveres uma vez mais a obra que queres revelar.
juraste a ti mesmo que irias seguir em frente
não te detendo, não cedendo e, algures,
um riso escarninho recordou-te
o restante dos teus sonhos.
enquanto te detinhas nos textos passados
cujas palavras, arrancadas à vida,
repousam agora no templo do esquecimento.
os olhos estavam húmidos no regresso à cama
traindo a mágoa que te tinha assaltado
ao releres os relatos das desventurosas viagens.
no dia seguinte uma fúria ferida anunciou-se
ao reveres uma vez mais a obra que queres revelar.
juraste a ti mesmo que irias seguir em frente
não te detendo, não cedendo e, algures,
um riso escarninho recordou-te
o restante dos teus sonhos.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
de olhos no mar surgiste-me tu
pela primeira vez. talvez não fosses tu,
mas eras tu.
contemplei a tua imagem até ela
desaparecer, e depois esqueci-te,
durante anos, até que essa
determinada teimosia se fez de novo anunciar
com um riso capaz de estilhaçar
quaisquer trevas que assomem.
vieste materializada num sonho, com estrelas
no teu olhar
e chegaste ávida pela vida com a exigência
de uma rendição impossível
de negar.
eixo do mundo, epicentro
de um abalo
de sensações que julguei
jamais vir a sentir...
pela primeira vez. talvez não fosses tu,
mas eras tu.
contemplei a tua imagem até ela
desaparecer, e depois esqueci-te,
durante anos, até que essa
determinada teimosia se fez de novo anunciar
com um riso capaz de estilhaçar
quaisquer trevas que assomem.
vieste materializada num sonho, com estrelas
no teu olhar
e chegaste ávida pela vida com a exigência
de uma rendição impossível
de negar.
eixo do mundo, epicentro
de um abalo
de sensações que julguei
jamais vir a sentir...
quarta-feira, 9 de abril de 2008
lembras-te das visões, dos apelos,
quando o mar sussurrava o teu nome
na brisa nocturna?
onde está agora essa voz que te segredava
mistérios e te revelava destinos fabulosos,
aquele murmúrio que te libertava
embalando-te na imensidão do vazio?
essa melancolia que carregas, em quantas marés
foi ela baptizada? consegues recordar-te
da primeira vez em que os teus olhos adquiriram
esse ar sonhador quando fitam o infinito?
e se as tuas emoções correm como a água
mas sentes-te preso, ansiando, num charco estagnado,
quando deixas o ímpeto das ondas conduzir-te
ao turbilhão para o qual nasceste?...
quando o mar sussurrava o teu nome
na brisa nocturna?
onde está agora essa voz que te segredava
mistérios e te revelava destinos fabulosos,
aquele murmúrio que te libertava
embalando-te na imensidão do vazio?
essa melancolia que carregas, em quantas marés
foi ela baptizada? consegues recordar-te
da primeira vez em que os teus olhos adquiriram
esse ar sonhador quando fitam o infinito?
e se as tuas emoções correm como a água
mas sentes-te preso, ansiando, num charco estagnado,
quando deixas o ímpeto das ondas conduzir-te
ao turbilhão para o qual nasceste?...
terça-feira, 1 de abril de 2008
um vazio enorme estende-se perante os olhos,
e sob os pés
a frieza áspera do solo faz-se sentir.
resta a queda, o impacto profundo, o estilhaçar
da ilusória armadura.
o trajecto até ao destino desenhado
pelas cicatrizes no corpo.
esse mapa que aguarda ganhar asas
para se elevar sobre esta terra de ninguém.
a fenda majestosa engole o corpo na descida
num sorriso de escarpas afiadas.
do confronto do uno com a imensidão
surge o nulo.
num virginal estado de sensações,
na sofreguidão de tudo provar.
por entre contornos de sangue a liberdade
abre-se de par em par
e ruma-se às estrelas...
e sob os pés
a frieza áspera do solo faz-se sentir.
resta a queda, o impacto profundo, o estilhaçar
da ilusória armadura.
o trajecto até ao destino desenhado
pelas cicatrizes no corpo.
esse mapa que aguarda ganhar asas
para se elevar sobre esta terra de ninguém.
a fenda majestosa engole o corpo na descida
num sorriso de escarpas afiadas.
do confronto do uno com a imensidão
surge o nulo.
num virginal estado de sensações,
na sofreguidão de tudo provar.
por entre contornos de sangue a liberdade
abre-se de par em par
e ruma-se às estrelas...
quinta-feira, 13 de março de 2008
"alcança as estrelas. tudo te aguarda
e te está destinado. apenas o tempo
é a barreira que te separa do objectivo
que inevitavelmente alcançarás."
- esta é a voz da ignorância.
"tudo é em vão, toda a vitória
uma ilusão. vem, vem, deixa-te
cair, em direcção a mim, à minha
carícia traiçoeira, ao envenenado conforto
que te segreda que nunca
saciarás o desejo."
- esta é voz da destruição.
"a essência do desejo é a procura, e a desta é
a questão. questiona tudo, questiona-te
a ti. olha as profundezas e reconhece
a escuridão que carregas. procura
o fim das crenças e encontra
a tua verdade. não temas
descobrir-te na noite profunda onde
resides só. transpõe o umbral
para o desfiladeiro onde te perdes e encontra-te
na queda nas falésias extremas. aprende
com a fénix o segredo
da destruição e do renascimento
e ascende com as asas
que conquistaste."
- esta é a voz do abismo.
e te está destinado. apenas o tempo
é a barreira que te separa do objectivo
que inevitavelmente alcançarás."
- esta é a voz da ignorância.
"tudo é em vão, toda a vitória
uma ilusão. vem, vem, deixa-te
cair, em direcção a mim, à minha
carícia traiçoeira, ao envenenado conforto
que te segreda que nunca
saciarás o desejo."
- esta é voz da destruição.
"a essência do desejo é a procura, e a desta é
a questão. questiona tudo, questiona-te
a ti. olha as profundezas e reconhece
a escuridão que carregas. procura
o fim das crenças e encontra
a tua verdade. não temas
descobrir-te na noite profunda onde
resides só. transpõe o umbral
para o desfiladeiro onde te perdes e encontra-te
na queda nas falésias extremas. aprende
com a fénix o segredo
da destruição e do renascimento
e ascende com as asas
que conquistaste."
- esta é a voz do abismo.
segunda-feira, 3 de março de 2008
permaneces fechado no fim de longos corredores
cujas portas parecem vibrar de opressão e silêncio,
retido no vazio a desfiar essas horas
em que questionas, perdido, o que existe
para lá da tristeza e da decepção.
porque permaneces aqui neste deserto
se és o fim das fronteiras e cruzas
os arrabaldes de mundos sempre em busca
sem nunca encontrar repouso?
se és chama sem ainda teres a lenha,
em que estrela te expandirias se pudesses
fazer brilhar as sonhadoras realidades
a partir do teu epicentro e em direcção ao infinito?
se soubeste olhar sem medo e reconhecer
toda a decadência que carregamos,
se viste os planaltos e os desfiladeiros negros
por onde as sombras caminham altivas,
se conseguiste buscar em ti uma e outra vez
as profundas falésias para lá das quais nada é,
e desse confronto dilacerante conseguiste
descortinar uma linha condutora para a tua obra.
...olhas longamente o abismo, e ele
devolve-te o olhar, a sua fenda
parecendo sorrir-te já reconhecendo
as tuas asas. e tu?...
cujas portas parecem vibrar de opressão e silêncio,
retido no vazio a desfiar essas horas
em que questionas, perdido, o que existe
para lá da tristeza e da decepção.
porque permaneces aqui neste deserto
se és o fim das fronteiras e cruzas
os arrabaldes de mundos sempre em busca
sem nunca encontrar repouso?
se és chama sem ainda teres a lenha,
em que estrela te expandirias se pudesses
fazer brilhar as sonhadoras realidades
a partir do teu epicentro e em direcção ao infinito?
se soubeste olhar sem medo e reconhecer
toda a decadência que carregamos,
se viste os planaltos e os desfiladeiros negros
por onde as sombras caminham altivas,
se conseguiste buscar em ti uma e outra vez
as profundas falésias para lá das quais nada é,
e desse confronto dilacerante conseguiste
descortinar uma linha condutora para a tua obra.
...olhas longamente o abismo, e ele
devolve-te o olhar, a sua fenda
parecendo sorrir-te já reconhecendo
as tuas asas. e tu?...
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
regressas sempre ao mesmo lugar.
vindo de todo o lado, tentando voar
para um lugar mais alto, para onde
te esqueças de tudo aquilo que
nunca conseguisses que fosse teu.
mas acabas sempre por voltar.
não ao ponto de partida, não aonde
conseguiste encontrar refúgio, sonhar
que um dia, em algum momento,
tudo melhoraria, porque isso sabes ser
uma grandiosa ilusão.
mas, aquilo a que sempre regressas,
é o momento em que sentes tudo
a desabar, a ferir-te, o lento esmagar
de mais um estilhaço de um sonho,
que atinge tudo de mais íntimo,
vibrando numa grave ressonância
onde pressentes a revelação de um futuro
que nunca nunca desejaste...
vindo de todo o lado, tentando voar
para um lugar mais alto, para onde
te esqueças de tudo aquilo que
nunca conseguisses que fosse teu.
mas acabas sempre por voltar.
não ao ponto de partida, não aonde
conseguiste encontrar refúgio, sonhar
que um dia, em algum momento,
tudo melhoraria, porque isso sabes ser
uma grandiosa ilusão.
mas, aquilo a que sempre regressas,
é o momento em que sentes tudo
a desabar, a ferir-te, o lento esmagar
de mais um estilhaço de um sonho,
que atinge tudo de mais íntimo,
vibrando numa grave ressonância
onde pressentes a revelação de um futuro
que nunca nunca desejaste...
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
deixa arder em ti a chama do desassossego,
deixa-te consumir por essa sede impossível de saciar
e observa a trémula luz que incandesce as falésias do abismo
num sinal da aurora que se avizinha.
invoca os espíritos a norte, sul, este e oeste
e grita ao vento que a hora é chegada
para a tua ascensão.
dirige o teu olhar para o mais alto promontório
e encara a falésia como aquilo
que te ajudará a alcançar o cume,
ao invés de um obstáculo a vencer.
firma-te no ponto último da tua descida
e grita: "até aqui mas não um passo mais",
e compreende que chegou o momento de ganhar os céus
sob o signo da fénix...
deixa-te consumir por essa sede impossível de saciar
e observa a trémula luz que incandesce as falésias do abismo
num sinal da aurora que se avizinha.
invoca os espíritos a norte, sul, este e oeste
e grita ao vento que a hora é chegada
para a tua ascensão.
dirige o teu olhar para o mais alto promontório
e encara a falésia como aquilo
que te ajudará a alcançar o cume,
ao invés de um obstáculo a vencer.
firma-te no ponto último da tua descida
e grita: "até aqui mas não um passo mais",
e compreende que chegou o momento de ganhar os céus
sob o signo da fénix...
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
entra nessa noite profunda, cuja atmosfera,
qual fio retesado, apenas aguarda
a vibração do grito
deita-te nessa avalanche de sensações
onde o mar em revolta arremessa os seus despojos
de encontro à costa dilacerada
sente o vento que varre o promontório
enquanto perscrutas o horizonte por sinais do naufrágio
ergue-te, coroado com os primeiros raios da aurora,
reconhecendo a sua filiação nas trevas.
qual fio retesado, apenas aguarda
a vibração do grito
deita-te nessa avalanche de sensações
onde o mar em revolta arremessa os seus despojos
de encontro à costa dilacerada
sente o vento que varre o promontório
enquanto perscrutas o horizonte por sinais do naufrágio
ergue-te, coroado com os primeiros raios da aurora,
reconhecendo a sua filiação nas trevas.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
momentos
há um momento em que todas as vozes se fundem num só murmúrio,
parecemos flutuar, por vezes crescer, e ficamos alheios a tudo,
perscrutando o infinito, ou de olhar fixo num ponto,
um momento em que nos encerramos no nosso próprio mundo.
há um momento em que pesamos prós e contras, olhamos
os caminhos percorridos e reflectimos sobre o que nos tornamos,
um momento em que desejamos destruir aquilo que somos.
há um momento, tantos momentos, em que descemos,
descemos ao mais fundo de nós, e quebramos, choramos
as carícias por que ansiamos, os objectivos que adiamos.
há um momento em que a raiva vem à tona,
emerge para nos submergir, e o desespero toma conta de nós,
inunda-nos um ensejo de destruir, essa volúpia niilista,
que se sobrepõe a essa carne não-saciada, instila o veneno
que nos leva ao momento, tão negro, em que desejamos morrer,
tão belo, tão angustiante, em que desejamos renascer...
parecemos flutuar, por vezes crescer, e ficamos alheios a tudo,
perscrutando o infinito, ou de olhar fixo num ponto,
um momento em que nos encerramos no nosso próprio mundo.
há um momento em que pesamos prós e contras, olhamos
os caminhos percorridos e reflectimos sobre o que nos tornamos,
um momento em que desejamos destruir aquilo que somos.
há um momento, tantos momentos, em que descemos,
descemos ao mais fundo de nós, e quebramos, choramos
as carícias por que ansiamos, os objectivos que adiamos.
há um momento em que a raiva vem à tona,
emerge para nos submergir, e o desespero toma conta de nós,
inunda-nos um ensejo de destruir, essa volúpia niilista,
que se sobrepõe a essa carne não-saciada, instila o veneno
que nos leva ao momento, tão negro, em que desejamos morrer,
tão belo, tão angustiante, em que desejamos renascer...
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