vivemos fascinados pelo
abismo
a infindável vulva rochosa de ásperos
lábios
que nos traga
vivemos hipnotizados pela
queda
pelo quase imperceptível sussurro do
fim
nada verbaliza vida como o
desejo
irracional do seu
término
a ilusão da hipótese de uma
reescrita
do nosso trajecto
nada implica sonho como a
crença
e a sua promessa de salvação
a projectar o fátuo
fogo
sobre a treva que nos rege
nenhuma mentira maior que uma segunda
vida
nenhuma maior que recompensa ou castigo
eternos
que uma justificação para a
irresponsabilidade
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
olho as tuas fotografias e não me consigo recordar
de quando o teu rosto era aquele que me olha nelas
como queria agarrar-te para sempre embalar-te
e preservar-te nesse estado em que ainda sou tanto para ti
amo-te mais do que consigo exprimir
e assusta-me não ser aquilo
que os teus olhos vêem
trago oculta em mim a angústia do momento
em que entenderás que eu nunca
consegui viver à altura do que poderia
ter sido
não sabes a tristeza que carrego e que
não quero nunca que seja tua
nem as noites que prolongo perdido em busca
de algo que nem consigo definir na imobilidade
vivo suspenso entre a realidade que sou e o vislumbre
da minha probabilidade e aí
perco-me na indefinição da hipótese e da capacidade
não conseguirás entender a sucessão de registos temporais
que de ti guardo até tu própria vivenciares os teus
e aí já o tempo sem perdão se terá encarregado
de quebrar os laços
não imaginas o que consigo ver no teu futuro
e como a sua luz contrasta com
o que vislumbro no meu
vivo com o fantasma de uma oportunidade niilista
aguardo a chegada do fim com a convicção
do nada que ele encerra e assim emoldurado
projecto a angústia e urgência da vida
enquanto engatilho e aponto as minhas armas a um alvo
que projecta o seu apelo desde o infinito
sempre tão ilusório
mas disto ainda nada sabes tudo ainda
encerra em si o maravilhoso da descoberta
tudo se reveste de uma película de novidade e albergo-te
sob esta asa protectora que a seu tempo desejarás
não sentir
e nessa distância inevitável da vida sinto
uma nota que vibra infinitamente ressoando
por intermináveis corredores onde o tempo
é medido por afastamentos e não duração
onde o trajecto das vivências acarreta
fronteiras incomensuráveis solidão transfigurada
pela busca de um sonho mas digo-te
nada disto é real nada disto realmente importa
quando na verdade apenas existimos na busca dilacerante
por aquilo que já fora nosso quando ainda não o sabíamos
de quando o teu rosto era aquele que me olha nelas
como queria agarrar-te para sempre embalar-te
e preservar-te nesse estado em que ainda sou tanto para ti
amo-te mais do que consigo exprimir
e assusta-me não ser aquilo
que os teus olhos vêem
trago oculta em mim a angústia do momento
em que entenderás que eu nunca
consegui viver à altura do que poderia
ter sido
não sabes a tristeza que carrego e que
não quero nunca que seja tua
nem as noites que prolongo perdido em busca
de algo que nem consigo definir na imobilidade
vivo suspenso entre a realidade que sou e o vislumbre
da minha probabilidade e aí
perco-me na indefinição da hipótese e da capacidade
não conseguirás entender a sucessão de registos temporais
que de ti guardo até tu própria vivenciares os teus
e aí já o tempo sem perdão se terá encarregado
de quebrar os laços
não imaginas o que consigo ver no teu futuro
e como a sua luz contrasta com
o que vislumbro no meu
vivo com o fantasma de uma oportunidade niilista
aguardo a chegada do fim com a convicção
do nada que ele encerra e assim emoldurado
projecto a angústia e urgência da vida
enquanto engatilho e aponto as minhas armas a um alvo
que projecta o seu apelo desde o infinito
sempre tão ilusório
mas disto ainda nada sabes tudo ainda
encerra em si o maravilhoso da descoberta
tudo se reveste de uma película de novidade e albergo-te
sob esta asa protectora que a seu tempo desejarás
não sentir
e nessa distância inevitável da vida sinto
uma nota que vibra infinitamente ressoando
por intermináveis corredores onde o tempo
é medido por afastamentos e não duração
onde o trajecto das vivências acarreta
fronteiras incomensuráveis solidão transfigurada
pela busca de um sonho mas digo-te
nada disto é real nada disto realmente importa
quando na verdade apenas existimos na busca dilacerante
por aquilo que já fora nosso quando ainda não o sabíamos
sábado, 22 de agosto de 2009
há um rosto que eu não reconheço
e que me observa,
de olhos castanhos cansados por horas
não dormidas,
semblante carregado a escrutinar
passado presente e futuro
há um rosto que eu não reconheço
e que me observa
e nos fios do seu cabelo e barba vejo
linhas brancas a redesenharem
um rosto que me observa e não
reconheço
e nos seus olhos agora vejo a cintilar
memórias que nunca viveram,
e o seu rosto endurece denunciado pela saliência
das suas maçãs
e uma fúria cujo olhar sinto a cravar-se
aflora-lhe à pele
há um silêncio que só eu consigo escutar
e que me acompanha
e nesse silêncio estão contidas todas
as palavras que eu escrevi e que nada
mais são que silêncio feito verbo de silêncio
dissimulado
há um silêncio que me acompanha
no rosto que me observa e eu
não reconheço,
um silêncio grande profundo como
se adivinha que outrora foram os seus
olhos,
um silêncio vincado nos lábios nos olhos nas linhas
que redesenham o silêncio branco grave
com a solenidade dos anos
há silêncio num rosto que me observa,
desvia o olhar quando desvio o meu,
que me fita não me reconhecendo
no silêncio da memória...
e que me observa,
de olhos castanhos cansados por horas
não dormidas,
semblante carregado a escrutinar
passado presente e futuro
há um rosto que eu não reconheço
e que me observa
e nos fios do seu cabelo e barba vejo
linhas brancas a redesenharem
um rosto que me observa e não
reconheço
e nos seus olhos agora vejo a cintilar
memórias que nunca viveram,
e o seu rosto endurece denunciado pela saliência
das suas maçãs
e uma fúria cujo olhar sinto a cravar-se
aflora-lhe à pele
há um silêncio que só eu consigo escutar
e que me acompanha
e nesse silêncio estão contidas todas
as palavras que eu escrevi e que nada
mais são que silêncio feito verbo de silêncio
dissimulado
há um silêncio que me acompanha
no rosto que me observa e eu
não reconheço,
um silêncio grande profundo como
se adivinha que outrora foram os seus
olhos,
um silêncio vincado nos lábios nos olhos nas linhas
que redesenham o silêncio branco grave
com a solenidade dos anos
há silêncio num rosto que me observa,
desvia o olhar quando desvio o meu,
que me fita não me reconhecendo
no silêncio da memória...
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
afinal a angústia não cessou com o fim da adolescência,
a desorientação tornou-se regra e os objectivos
foram caindo na areia beijada pelas ondas e o vento
as horas são passadas a tentar travar a sua passagem
como se estivesse sempre presente a voz do personagem que repete
"esta é a tua vida, e está a acabar, um minuto de cada vez"
a percepção do tempo mudou e com ela
a percepção da esperança, da justiça.
a monotonia diária que estilhaça a vontade e abre
subrepticiamente a porta à loucura,
é uma máquina cuja cadência esmaga a fúria
restam seres isolados em casulos vivendo
ilusórias vidas de ecrã rodeados de
nomes fictícios
consideramos arte a mancha escarlate
que corre da intervenção da lámina
no nosso pulso
rendidos à apatia de um não-futuro,
uma não-vida num não-tempo
profundamente sós.
a desorientação tornou-se regra e os objectivos
foram caindo na areia beijada pelas ondas e o vento
as horas são passadas a tentar travar a sua passagem
como se estivesse sempre presente a voz do personagem que repete
"esta é a tua vida, e está a acabar, um minuto de cada vez"
a percepção do tempo mudou e com ela
a percepção da esperança, da justiça.
a monotonia diária que estilhaça a vontade e abre
subrepticiamente a porta à loucura,
é uma máquina cuja cadência esmaga a fúria
restam seres isolados em casulos vivendo
ilusórias vidas de ecrã rodeados de
nomes fictícios
consideramos arte a mancha escarlate
que corre da intervenção da lámina
no nosso pulso
rendidos à apatia de um não-futuro,
uma não-vida num não-tempo
profundamente sós.
sábado, 25 de julho de 2009
o objecto permanece imóvel, indiferente
às forças mentais que pensam em
movê-lo
enquanto elas próprias se debatem
com outras forças que ditam a sua
inércia.
o ponto de focagem esbate-se e o ruído
ocupa o lugar onde anteriormente existia
concentração.
a cadência da máquina, o narcotizante
murmúrio
que se insinua dizendo
não és mais que a tua sombra
definhada...
às forças mentais que pensam em
movê-lo
enquanto elas próprias se debatem
com outras forças que ditam a sua
inércia.
o ponto de focagem esbate-se e o ruído
ocupa o lugar onde anteriormente existia
concentração.
a cadência da máquina, o narcotizante
murmúrio
que se insinua dizendo
não és mais que a tua sombra
definhada...
sexta-feira, 10 de julho de 2009
o vazio assume proporções inimagináveis.
é difícil combater a sensação de derrota
que se impõe, insinuante, silenciosa,
no quotidiano desconexo.
o silêncio encobre o desespero
que se desnuda na antecâmara
do desejo.
a nota que não vibra,
a reverberação que não se estende,
a imagem muda que olha
de semblante vazio.
o corpo estranho que o espelho
devolve
a estrada que passa ao lado,
de acessos incógnitos.
e no fim o tempo na sua marcha,
o tiquetaque que, mesmo negado,
está sempre presente...
sempre presente...
sempre presente...
é difícil combater a sensação de derrota
que se impõe, insinuante, silenciosa,
no quotidiano desconexo.
o silêncio encobre o desespero
que se desnuda na antecâmara
do desejo.
a nota que não vibra,
a reverberação que não se estende,
a imagem muda que olha
de semblante vazio.
o corpo estranho que o espelho
devolve
a estrada que passa ao lado,
de acessos incógnitos.
e no fim o tempo na sua marcha,
o tiquetaque que, mesmo negado,
está sempre presente...
sempre presente...
sempre presente...
sábado, 18 de abril de 2009
as palavras fizeram-se anunciar
na melancolia do fim
de dia
quando as últimas reminiscências
do sol
recortavam a fogo o contorno
das nuvens
e a vermelhidão do céu não conseguiu
contrapor o peso à sombria ameaça
que pairava
sobre o mar
redesenharam-se no horizonte os trajectos
que o corpo não percorre e o desejo
tece
alheio à crueza da realidade que aguarda
cada novo despertar
os vultos assumiram a sua forma
na noite que se desdobra
na sempre perdida batalha travada
contra o cansaço
acercaram-se
anunciaram-se
enunciaram os seus nomes
ao longo do trajecto
como marcos miliários numa qualquer
via de derrota
relataram o seu percurso e invocaram
a memória
do seu nascimento e nomearam
o esquecimento a que
foram votados
como a guitarra que aguarda
nas cercanias da secretária
muda
intocada
como um corpo que arde no desejo
não
consumado
como o livro que aguarda
enterrado
sob uma pilha de objectos
não
remexidos
e as fotografias que aguardam
um novo olhar que as resgate
ao seu destino
aleatoriamente
arquivado
os vultos falaram
sobre a tragédia para lá dos dias
na frieza do fim
e na agonia
do violento despertar para a morte
no culminar
de uma vida
vazia
lamentaram a inexactidão
do traço
deixado
sobre o solo
da estática errância
e de como
o verbo por si só
nada cria...
na melancolia do fim
de dia
quando as últimas reminiscências
do sol
recortavam a fogo o contorno
das nuvens
e a vermelhidão do céu não conseguiu
contrapor o peso à sombria ameaça
que pairava
sobre o mar
redesenharam-se no horizonte os trajectos
que o corpo não percorre e o desejo
tece
alheio à crueza da realidade que aguarda
cada novo despertar
os vultos assumiram a sua forma
na noite que se desdobra
na sempre perdida batalha travada
contra o cansaço
acercaram-se
anunciaram-se
enunciaram os seus nomes
ao longo do trajecto
como marcos miliários numa qualquer
via de derrota
relataram o seu percurso e invocaram
a memória
do seu nascimento e nomearam
o esquecimento a que
foram votados
como a guitarra que aguarda
nas cercanias da secretária
muda
intocada
como um corpo que arde no desejo
não
consumado
como o livro que aguarda
enterrado
sob uma pilha de objectos
não
remexidos
e as fotografias que aguardam
um novo olhar que as resgate
ao seu destino
aleatoriamente
arquivado
os vultos falaram
sobre a tragédia para lá dos dias
na frieza do fim
e na agonia
do violento despertar para a morte
no culminar
de uma vida
vazia
lamentaram a inexactidão
do traço
deixado
sobre o solo
da estática errância
e de como
o verbo por si só
nada cria...
quinta-feira, 9 de abril de 2009
passeio-me etéreo onde outros vivem
sempre a coberto das sombras, pelos recantos
evitando os olhares.
detenho-me a contemplar
a naturalidade dos outros que nunca
fará parte de mim.
e ninguém desconfia
do fogo que arde,
quando me olham de soslaio
e pressentem
a intrusão do meu olhar,
nem ninguém consegue
descortinar os meus passos
na noite
que me acompanha.
sempre a coberto das sombras, pelos recantos
evitando os olhares.
detenho-me a contemplar
a naturalidade dos outros que nunca
fará parte de mim.
e ninguém desconfia
do fogo que arde,
quando me olham de soslaio
e pressentem
a intrusão do meu olhar,
nem ninguém consegue
descortinar os meus passos
na noite
que me acompanha.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
nessa estrada que se embrenha nas profundezas
ultrapassamos o nosso último marco a cada
nova viagem,
nessa estrada que nos conduz aonde sempre negamos
que chegaríamos.
a cada novo passo, nova jornada, banindo
a esperança dos nossos destinos,
passada pesada na inevitabilidade do confronto
com a negrura que olhamos de frente.
e, no entanto, quão fina é a linha
entre a coragem e o abandono enquanto descemos
por esse caminho ventoso e frio, juncado de pedras
que ora nos detém ora nos impelem
para uma queda maior.
que violência nos aguarda no fim,
que esquecimento?
ultrapassamos o nosso último marco a cada
nova viagem,
nessa estrada que nos conduz aonde sempre negamos
que chegaríamos.
a cada novo passo, nova jornada, banindo
a esperança dos nossos destinos,
passada pesada na inevitabilidade do confronto
com a negrura que olhamos de frente.
e, no entanto, quão fina é a linha
entre a coragem e o abandono enquanto descemos
por esse caminho ventoso e frio, juncado de pedras
que ora nos detém ora nos impelem
para uma queda maior.
que violência nos aguarda no fim,
que esquecimento?
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
antes que a noite caia
e a tua memória de mim se desvaneça
antes que a noite caia
antes que um adeus possa ser proferido
e partamos trilhando diferentes caminhos
antes que a noite caia
e na escuridão a minha mão
já não consiga tocar a tua
antes que a noite caia
e nessa noite o sonho
daquilo que desejava ser se desvaneça
e os meus olhos já lá não estejam
para te fitar
e a minha voz já não seja ouvida
para te sossegar
antes que a noite caia
embalando a melancolia
numa última sonolência
antes que a noite caia
sem que o dia me esclareça
os porquês que me assombram
deixando no ar um amargor
que acompanha o último suspiro
antes que a noite caia
retém de mim aquilo
que não queres que o tempo te furte
quando ele se encarregar de ocultar
as marcas da minha presença
nas ondas que gritam junto às rochas
antes que a noite caia
e o cansaço se apoderar do meu corpo
e o desespero da minha mente
trazendo consigo a memória
das horas perdidas a contemplar o desespero
das horas perdidas no desespero
antes que a noite caia
e o silêncio encontre o meu silêncio e saiba
que há muito a noite já caiu
antes que a noite caia
e se aperceba da ironia que sempre foi
caminharmos lado a lado quando eu
sempre aguardei que o dia se erguesse
antes que a noite caia
antes que a noite caia
e a tua memória de mim se desvaneça
antes que a noite caia
antes que um adeus possa ser proferido
e partamos trilhando diferentes caminhos
antes que a noite caia
e na escuridão a minha mão
já não consiga tocar a tua
antes que a noite caia
e nessa noite o sonho
daquilo que desejava ser se desvaneça
e os meus olhos já lá não estejam
para te fitar
e a minha voz já não seja ouvida
para te sossegar
antes que a noite caia
embalando a melancolia
numa última sonolência
antes que a noite caia
sem que o dia me esclareça
os porquês que me assombram
deixando no ar um amargor
que acompanha o último suspiro
antes que a noite caia
retém de mim aquilo
que não queres que o tempo te furte
quando ele se encarregar de ocultar
as marcas da minha presença
nas ondas que gritam junto às rochas
antes que a noite caia
e o cansaço se apoderar do meu corpo
e o desespero da minha mente
trazendo consigo a memória
das horas perdidas a contemplar o desespero
das horas perdidas no desespero
antes que a noite caia
e o silêncio encontre o meu silêncio e saiba
que há muito a noite já caiu
antes que a noite caia
e se aperceba da ironia que sempre foi
caminharmos lado a lado quando eu
sempre aguardei que o dia se erguesse
antes que a noite caia
antes que a noite caia
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
este vazio devorador
que marca presença nas encruzilhadas
em que somos chamados a decidir
sobre o trajecto que tomamos
para o nosso fim
e nos consome em largos tragos,
vultos desenhados pela lesta mão dos nossos medos,
da nossa apatia, da nossa falta de definição.
sentirmo-nos deslocados num mundo que sempre nos parece
dominado por uma cristalina riqueza de pormenores
que esbate o nosso contorno até uma suavidade etérea,
desvanecente, nula
e nós teimosamente a debatermo-nos,
última resistência de uma inevitável presa,
teimosamente alheios à crueza
da futilidade de uma existência consagrada
ao seu próprio extermínio
sem a percepção necessária para concluir
que o vazio em nosso redor é
a nossa própria projecção.
que marca presença nas encruzilhadas
em que somos chamados a decidir
sobre o trajecto que tomamos
para o nosso fim
e nos consome em largos tragos,
vultos desenhados pela lesta mão dos nossos medos,
da nossa apatia, da nossa falta de definição.
sentirmo-nos deslocados num mundo que sempre nos parece
dominado por uma cristalina riqueza de pormenores
que esbate o nosso contorno até uma suavidade etérea,
desvanecente, nula
e nós teimosamente a debatermo-nos,
última resistência de uma inevitável presa,
teimosamente alheios à crueza
da futilidade de uma existência consagrada
ao seu próprio extermínio
sem a percepção necessária para concluir
que o vazio em nosso redor é
a nossa própria projecção.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
tanto silêncio por estes dias
um silêncio ensurdecedor
um silêncio sobre a vida
que não o é
mas também o silêncio
na realidade não o é
é antes uma ausência
um sentido ausente da vida
uma longa batalha
na ausência de esperança
um repetir de gestos, rotinas
ausentes de significado
ou talvez esta ausência
seja apenas eu
e esse eu que julgo ausente
seja nada, seja silêncio
e este eu presente todo o eu
que eu possa ser...
um silêncio ensurdecedor
um silêncio sobre a vida
que não o é
mas também o silêncio
na realidade não o é
é antes uma ausência
um sentido ausente da vida
uma longa batalha
na ausência de esperança
um repetir de gestos, rotinas
ausentes de significado
ou talvez esta ausência
seja apenas eu
e esse eu que julgo ausente
seja nada, seja silêncio
e este eu presente todo o eu
que eu possa ser...
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
ao fundo de um corredor havia uma porta
ao fundo de um longo corredor perdido
na semi-obscuridade inconstante produzida
por uma luz que tremeluzia solitária havia
uma porta e nessa porta perdida ao fundo
de um longo corredor estavam gravados vários símbolos
estranhos símbolos gravados numa porta perdida
ao fundo de um longo corredor e esses símbolos
estranhos pareciam invocar realidades de sonho
sonhos invocados por símbolos estranhos numa porta
perdida ao fundo de um longo corredor na semi-obscuridade
ao fundo de um longo corredor perdido
na semi-obscuridade inconstante produzida
por uma luz que tremeluzia solitária havia
uma porta e nessa porta perdida ao fundo
de um longo corredor estavam gravados vários símbolos
estranhos símbolos gravados numa porta perdida
ao fundo de um longo corredor e esses símbolos
estranhos pareciam invocar realidades de sonho
sonhos invocados por símbolos estranhos numa porta
perdida ao fundo de um longo corredor na semi-obscuridade
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
nesse sinuoso jardim estão encerrados segredos,
que enlouquecem a memória com a sua ausência,
de onde todos os caminhos divergem nunca encontrando
o centro do labirinto no recanto mais profundo.
nos trilhos da tristeza sopra uma brisa,
como que um leve roçar de mãos, uma carícia,
e nela a sua ausência o desejo
de caminhar em direcção a um elusivo destino.
as estradas desembocam na solidão oceânica,
na abissal vastidão contemplativa onde
o murmúrio do tumulto dita o isolamento.
que enlouquecem a memória com a sua ausência,
de onde todos os caminhos divergem nunca encontrando
o centro do labirinto no recanto mais profundo.
nos trilhos da tristeza sopra uma brisa,
como que um leve roçar de mãos, uma carícia,
e nela a sua ausência o desejo
de caminhar em direcção a um elusivo destino.
as estradas desembocam na solidão oceânica,
na abissal vastidão contemplativa onde
o murmúrio do tumulto dita o isolamento.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
... como se disto houvesse vida,
como se disto houvesse esperança,
como se disto resultasse mais que desespero,
apatia, raiva ou depressão
e tudo isto não fosse mais
que espinhos no caminho,
como se isto não fosse
todos os frutos que conseguimos colher
e para lá destes muros ameaçadores
existisse realmente uma luz
a aguardar ser contemplada,
como se isto não fosse mais que uma ilusão
e na verdade tudo acabaria bem
e não haveria desperdício de sofrimento, de luta
e isto apenas um teste no qual triunfaríamos
pela resistência, persistência, desejo
como se isto pudesse ser verdade...
como se disto houvesse esperança,
como se disto resultasse mais que desespero,
apatia, raiva ou depressão
e tudo isto não fosse mais
que espinhos no caminho,
como se isto não fosse
todos os frutos que conseguimos colher
e para lá destes muros ameaçadores
existisse realmente uma luz
a aguardar ser contemplada,
como se isto não fosse mais que uma ilusão
e na verdade tudo acabaria bem
e não haveria desperdício de sofrimento, de luta
e isto apenas um teste no qual triunfaríamos
pela resistência, persistência, desejo
como se isto pudesse ser verdade...
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
sábado, 18 de outubro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
não restam mais que pálidos espectros
nos caminhos que outrora trilhávamos,
não restam mais que memórias abandonadas,
destinos deixados em aberto
com promessas de um futuro regresso.
o mar reclama de novo o seu território
enviando sucessivas campanhas à reconquista da costa.
sinto-o em mim e ele estende-me o convite
de navegar seguindo as coordenadas do desejo,
instrumentos orientados para o sonho.
nos caminhos que outrora trilhávamos,
não restam mais que memórias abandonadas,
destinos deixados em aberto
com promessas de um futuro regresso.
o mar reclama de novo o seu território
enviando sucessivas campanhas à reconquista da costa.
sinto-o em mim e ele estende-me o convite
de navegar seguindo as coordenadas do desejo,
instrumentos orientados para o sonho.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
quem somos nós nas sombras,
quando na hora do desespero
o toque soa
e a esperança vacila na sua
convicção,
e nos dividimos entre chacais e hienas
tão rapidamente esquecendo
a réstea de razão que nos ancorava
ao cais,
e vagueamos na raiva,
olhos injectados de ódio,
matilhas insaciáveis no rasto
do sangue
e, reorientando a navegação,
nos vemos na expectativa de colidir
com os nossos mais profundos
receios,
enquanto um pequeno punhado de nós
apenas desejava olhar as montanhas
ou rumar em direcção
ao deserto?
quando na hora do desespero
o toque soa
e a esperança vacila na sua
convicção,
e nos dividimos entre chacais e hienas
tão rapidamente esquecendo
a réstea de razão que nos ancorava
ao cais,
e vagueamos na raiva,
olhos injectados de ódio,
matilhas insaciáveis no rasto
do sangue
e, reorientando a navegação,
nos vemos na expectativa de colidir
com os nossos mais profundos
receios,
enquanto um pequeno punhado de nós
apenas desejava olhar as montanhas
ou rumar em direcção
ao deserto?
sábado, 30 de agosto de 2008
vou descrevendo círculos no meu voo
observando à distância
antes do mergulho a pique,
um batedor em missão de reconhecimento.
próximo do nível do chão
voo em movimentos tangentes.
um bater de asas imperceptível,
a minha figura invisível.
distancio-me ao roçar a verdade
dos sombrios arrabaldes
regressando às escarpas.
por vezes sou
como uma águia tudo registando
a partir da sua solidão rochosa
por vezes sou
como maldoror no cimo da falésia
a observar o naufrágio.
observando à distância
antes do mergulho a pique,
um batedor em missão de reconhecimento.
próximo do nível do chão
voo em movimentos tangentes.
um bater de asas imperceptível,
a minha figura invisível.
distancio-me ao roçar a verdade
dos sombrios arrabaldes
regressando às escarpas.
por vezes sou
como uma águia tudo registando
a partir da sua solidão rochosa
por vezes sou
como maldoror no cimo da falésia
a observar o naufrágio.
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