sábado, 6 de Fevereiro de 2010

a luz evanescente traz consigo um apelo
que estende o seu murmúrio reverberando
onde ecoam os passos da solidão

há encerrada em si a memória
da linha do horizonte recortada a laivos de fogo
precedida pelo mar

eu ainda estou naquele rochedo
onde as ondas contavam segredos
e imprimiram em mim a sua voz

eu ainda tenho dez quinze vinte anos
e tudo é ainda jogado
no campo das probabilidades

ainda as sombras não se abateram
e a tempestade surgiu no horizonte
ainda a inocência perspectiva o futuro

já a mácula se instalou ainda que indelével
mas a sua presença não foi notada
até à hora das trevas

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

há demasiado tempo que o ar nesta latrina se tornou insuportável
e cada dia é vivido na vã mentira a nós próprios
de um dia conseguirmos respirar.

há demasiado tempo que as sombras se tornaram tão densas
que nos substituíram
e nos perdemos no esbatimento da sua projecção.

há demasiado tempo que não sabemos o que é suposto sermos
para além de toda a carga que agora nos anula
e que sentimos nunca terminar.

há demasiado tempo que nos separamos e esquecemos
o trajecto que tínhamos perfilado no horizonte
aonde sabíamos que iríamos chegar.

há demasiado tempo que as armas foram depostas
e se encontram enferrujadas num canto
para onde relegamos os sonhos que preferimos não sonhar.

há demasiado tempo que não sermos se tornou banal
e queimamos o tempo numa cruel ânsia
por um fim nulo.

há demasiado tempo...
há demasiado tempo que aguardo o dia
que cesse a noite que me encerra
e possa rever, por entre névoa e ruína,
quem eu julgava ser.

há demasiado tempo, porém, que perdi aquilo que fui
e me tornei no que sempre odiara.
há demasiado tempo que vivo incapaz sequer de descortinar
a saída do labirinto.
há demasiado tempo que fui devorado
pelo que nunca desejei.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

é uma estranha serenidade,
uma doentia ausência de mobilidade
que dissimula uma raiva demasiado
profunda.
é como uma casa, perfeitamente visível
e por onde toda a gente passa,
sem que nunca ninguém se aperceba
do que realmente ocorre
no seu interior.
uma jaula de vidros fumados
insonorizados e inquebráveis
onde se é destruído à vista
de todos.

é uma distância impossível de descrever
e percorrer,
um caminho onde tu próprio detonas
as pontes que te conduziriam de regresso.
uma fuga sempre em frente numa
ânsia auto-destrutiva por um
abismo.
é uma sensação de tudo querer
e nada fazer,
desejar as estrelas sem antes aprender a dar
um passo.

é a expectativa de um rio a transbordar
espera-se sempre que os diques aguentem
mais um pouco,
nunca sabemos quando virá a
derradeira gota que fará
transbordar a represa.
tem-se o secreto desejo de
ao menos a destruição deixar
memória.

é a voz que se cala, uma e outra vez,
o grito que se deixa morrer
na garganta, até que
se deixa de saber gritar.
são todos os sons que deixamos
desaparecer até
já nem a memória restar.

é a dor dos anos que passam
sem que a imobilidade seja
abalada.
é o desespero que vai chegando,
primeiro de mansinho até
se sentir a sua presença de forma
avassaladora.
é o animal que vai saltando às grades
já ignorando a intensidade com que
se fere.

é a escolha da vítima em sê-lo
porque o carrasco sempre
o será,
é a violência que jaz adormecida
latente
a aguardar o pior momento que comprove
a nossa bestialidade.
é a dolorosa constatação da derrota perante a
vida.

domingo, 24 de Janeiro de 2010

as fissuras afloraram à superfície, imperceptíveis de início, mas logo inequivocamente presentes, conferindo, numa primeira visão de relance, uma distinta aura de pintura antiga, uma falsa disposição artística, revelando logo em seguida porém as suas verdadeiras debilidades, a fragilidade intrínseca que já denunciava o colapso.
imóvel, incapaz de se regenerar evitando a desesperante ruína, o edifício desabou num clamor de angústia abrindo caminho à insuportável banalidade do quotidiano humilhante.
das suas alas fugiram o que restava da delicadeza e vontade e o ocupante das ruínas renomeou-se desespero.

sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

há uma distância enorme medida
pelo comprimento de um braço, pelo toque
de uma mão, o sabor
de um beijo, o som
de uma palavra.

uma distância de muros
invisíveis, gestos contidos
pela densidade da não-
aparente solidão.

uma distância árctica nos olhares,
na falsa altivez com que
nos cruzamos a dissimular
a nossa fraqueza.

há uma distância descrita na
melancolia de um dia
de outono, na trajectória das
folhas
em
queda.

uma distância impossível
de cruzar e que se acentua nesta
fria idade do mundo
neste lugar de olhares
mais longínquos, mais
frios.

quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

o silêncio é um resumo da vida
a expressão da perda
de rumo
o vazio que nos acaricia
antes de se
revelar
o grito do desespero morto
na garganta da
apatia

um som nulo sem espaço
por onde se
propagar

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

vivemos fascinados pelo
abismo
a infindável vulva rochosa de ásperos
lábios
que nos traga

vivemos hipnotizados pela
queda
pelo quase imperceptível sussurro do
fim

nada verbaliza vida como o
desejo
irracional do seu
término

a ilusão da hipótese de uma
reescrita
do nosso trajecto

nada implica sonho como a
crença
e a sua promessa de salvação
a projectar o fátuo
fogo
sobre a treva que nos rege

nenhuma mentira maior que uma segunda
vida
nenhuma maior que recompensa ou castigo
eternos
que uma justificação para a
irresponsabilidade

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

olho as tuas fotografias e não me consigo recordar
de quando o teu rosto era aquele que me olha nelas
como queria agarrar-te para sempre embalar-te
e preservar-te nesse estado em que ainda sou tanto para ti

amo-te mais do que consigo exprimir
e assusta-me não ser aquilo
que os teus olhos vêem
trago oculta em mim a angústia do momento
em que entenderás que eu nunca
consegui viver à altura do que poderia
ter sido

não sabes a tristeza que carrego e que
não quero nunca que seja tua
nem as noites que prolongo perdido em busca
de algo que nem consigo definir na imobilidade

vivo suspenso entre a realidade que sou e o vislumbre
da minha probabilidade e aí
perco-me na indefinição da hipótese e da capacidade

não conseguirás entender a sucessão de registos temporais
que de ti guardo até tu própria vivenciares os teus
e aí já o tempo sem perdão se terá encarregado
de quebrar os laços

não imaginas o que consigo ver no teu futuro
e como a sua luz contrasta com
o que vislumbro no meu

vivo com o fantasma de uma oportunidade niilista
aguardo a chegada do fim com a convicção
do nada que ele encerra e assim emoldurado
projecto a angústia e urgência da vida
enquanto engatilho e aponto as minhas armas a um alvo
que projecta o seu apelo desde o infinito
sempre tão ilusório

mas disto ainda nada sabes tudo ainda
encerra em si o maravilhoso da descoberta
tudo se reveste de uma película de novidade e albergo-te
sob esta asa protectora que a seu tempo desejarás
não sentir

e nessa distância inevitável da vida sinto
uma nota que vibra infinitamente ressoando
por intermináveis corredores onde o tempo
é medido por afastamentos e não duração
onde o trajecto das vivências acarreta
fronteiras incomensuráveis solidão transfigurada
pela busca de um sonho mas digo-te
nada disto é real nada disto realmente importa
quando na verdade apenas existimos na busca dilacerante
por aquilo que já fora nosso quando ainda não o sabíamos

sábado, 22 de Agosto de 2009

há um rosto que eu não reconheço
e que me observa,
de olhos castanhos cansados por horas
não dormidas,
semblante carregado a escrutinar
passado presente e futuro

há um rosto que eu não reconheço
e que me observa
e nos fios do seu cabelo e barba vejo
linhas brancas a redesenharem
um rosto que me observa e não
reconheço
e nos seus olhos agora vejo a cintilar
memórias que nunca viveram,
e o seu rosto endurece denunciado pela saliência
das suas maçãs
e uma fúria cujo olhar sinto a cravar-se
aflora-lhe à pele

há um silêncio que só eu consigo escutar
e que me acompanha
e nesse silêncio estão contidas todas
as palavras que eu escrevi e que nada
mais são que silêncio feito verbo de silêncio
dissimulado

há um silêncio que me acompanha
no rosto que me observa e eu
não reconheço,
um silêncio grande profundo como
se adivinha que outrora foram os seus
olhos,
um silêncio vincado nos lábios nos olhos nas linhas
que redesenham o silêncio branco grave
com a solenidade dos anos

há silêncio num rosto que me observa,
desvia o olhar quando desvio o meu,
que me fita não me reconhecendo
no silêncio da memória...

quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

afinal a angústia não cessou com o fim da adolescência,
a desorientação tornou-se regra e os objectivos
foram caindo na areia beijada pelas ondas e o vento

as horas são passadas a tentar travar a sua passagem
como se estivesse sempre presente a voz do personagem que repete
"esta é a tua vida, e está a acabar, um minuto de cada vez"
a percepção do tempo mudou e com ela
a percepção da esperança, da justiça.

a monotonia diária que estilhaça a vontade e abre
subrepticiamente a porta à loucura,
é uma máquina cuja cadência esmaga a fúria

restam seres isolados em casulos vivendo
ilusórias vidas de ecrã rodeados de
nomes fictícios

consideramos arte a mancha escarlate
que corre da intervenção da lámina
no nosso pulso

rendidos à apatia de um não-futuro,
uma não-vida num não-tempo
profundamente sós.

sábado, 25 de Julho de 2009

o objecto permanece imóvel, indiferente
às forças mentais que pensam em
movê-lo
enquanto elas próprias se debatem
com outras forças que ditam a sua
inércia.

o ponto de focagem esbate-se e o ruído
ocupa o lugar onde anteriormente existia
concentração.

a cadência da máquina, o narcotizante
murmúrio
que se insinua dizendo
não és mais que a tua sombra
definhada...

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

o vazio assume proporções inimagináveis.
é difícil combater a sensação de derrota
que se impõe, insinuante, silenciosa,
no quotidiano desconexo.

o silêncio encobre o desespero
que se desnuda na antecâmara
do desejo.

a nota que não vibra,
a reverberação que não se estende,
a imagem muda que olha
de semblante vazio.

o corpo estranho que o espelho
devolve
a estrada que passa ao lado,
de acessos incógnitos.

e no fim o tempo na sua marcha,
o tiquetaque que, mesmo negado,
está sempre presente...
sempre presente...
sempre presente...

sábado, 18 de Abril de 2009

as palavras fizeram-se anunciar
na melancolia do fim
de dia
quando as últimas reminiscências
do sol
recortavam a fogo o contorno
das nuvens
e a vermelhidão do céu não conseguiu
contrapor o peso à sombria ameaça
que pairava
sobre o mar

redesenharam-se no horizonte os trajectos
que o corpo não percorre e o desejo
tece
alheio à crueza da realidade que aguarda
cada novo despertar

os vultos assumiram a sua forma
na noite que se desdobra
na sempre perdida batalha travada
contra o cansaço
acercaram-se
anunciaram-se
enunciaram os seus nomes
ao longo do trajecto
como marcos miliários numa qualquer
via de derrota
relataram o seu percurso e invocaram
a memória
do seu nascimento e nomearam
o esquecimento a que
foram votados
como a guitarra que aguarda
nas cercanias da secretária
muda
intocada
como um corpo que arde no desejo
não
consumado
como o livro que aguarda
enterrado
sob uma pilha de objectos
não
remexidos
e as fotografias que aguardam
um novo olhar que as resgate
ao seu destino
aleatoriamente
arquivado

os vultos falaram
sobre a tragédia para lá dos dias
na frieza do fim
e na agonia
do violento despertar para a morte
no culminar
de uma vida
vazia
lamentaram a inexactidão
do traço
deixado
sobre o solo
da estática errância
e de como
o verbo por si só
nada cria...

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

passeio-me etéreo onde outros vivem
sempre a coberto das sombras, pelos recantos
evitando os olhares.

detenho-me a contemplar
a naturalidade dos outros que nunca
fará parte de mim.

e ninguém desconfia
do fogo que arde,
quando me olham de soslaio
e pressentem
a intrusão do meu olhar,

nem ninguém consegue
descortinar os meus passos
na noite
que me acompanha.

terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

nessa estrada que se embrenha nas profundezas
ultrapassamos o nosso último marco a cada
nova viagem,
nessa estrada que nos conduz aonde sempre negamos
que chegaríamos.

a cada novo passo, nova jornada, banindo
a esperança dos nossos destinos,
passada pesada na inevitabilidade do confronto
com a negrura que olhamos de frente.

e, no entanto, quão fina é a linha
entre a coragem e o abandono enquanto descemos
por esse caminho ventoso e frio, juncado de pedras
que ora nos detém ora nos impelem
para uma queda maior.

que violência nos aguarda no fim,
que esquecimento?