vou descrevendo círculos no meu voo
observando à distância
antes do mergulho a pique,
um batedor em missão de reconhecimento.
próximo do nível do chão
voo em movimentos tangentes.
um bater de asas imperceptível,
a minha figura invisível.
distancio-me ao roçar a verdade
dos sombrios arrabaldes
regressando às escarpas.
por vezes sou
como uma águia tudo registando
a partir da sua solidão rochosa
por vezes sou
como maldoror no cimo da falésia
a observar o naufrágio.
sábado, 30 de agosto de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
contempla os despojos do teu dia
e diz-me
em que ponto eles se curvam
projectando uma sombra sobre a tua vida
a cujo enlace não consegues escapar.
fala-me do momento
em que te vês subitamente
só
na angustiante convicção
de que ninguém escuta e tudo
é vão.
conta-me
o que esses tristes olhos vêem
quando se demoram longamente
a olhar o futuro
e para lá dos muros
encontram o vazio...
e diz-me
em que ponto eles se curvam
projectando uma sombra sobre a tua vida
a cujo enlace não consegues escapar.
fala-me do momento
em que te vês subitamente
só
na angustiante convicção
de que ninguém escuta e tudo
é vão.
conta-me
o que esses tristes olhos vêem
quando se demoram longamente
a olhar o futuro
e para lá dos muros
encontram o vazio...
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
há uma melancolia que se instala
na hora da partida
quando observas os rostos que se ausentam,
ponderas sobre a vida
e reequacionas opções tomadas.
deixas vaguear a tua mente
por momentos
e tentas imaginar como
estas vidas se projectam para lá
do ponto em que se cruzam.
impossível tocar toda esta humanidade...
há um desejo que se instala
quando olho as estradas num mapa
e anseio percorrer todas elas,
ganhar asas e partir
com as vagas migratórias dos pássaros,
sempre em busca do sol, sempre em busca do sol.
regressar volvidos anos com
a saudade a transbordar nos olhos,
profética barba em desalinho,
emaranhada como as estradas percorridas,
como as vidas vividas...
na hora da partida
quando observas os rostos que se ausentam,
ponderas sobre a vida
e reequacionas opções tomadas.
deixas vaguear a tua mente
por momentos
e tentas imaginar como
estas vidas se projectam para lá
do ponto em que se cruzam.
impossível tocar toda esta humanidade...
há um desejo que se instala
quando olho as estradas num mapa
e anseio percorrer todas elas,
ganhar asas e partir
com as vagas migratórias dos pássaros,
sempre em busca do sol, sempre em busca do sol.
regressar volvidos anos com
a saudade a transbordar nos olhos,
profética barba em desalinho,
emaranhada como as estradas percorridas,
como as vidas vividas...
quarta-feira, 23 de julho de 2008
movo-me na serena ambiguidade do dia
escrutinando a hipótese e a sua ausência.
sou o meu duplo incaracterístico perdido na aleatoriedade.
nesses dias que se mantêm inalterados,
exibindo os seus brilhos de demência,
perspectivo a ausência em que me debato
numa linha condutora de pensamento
em que busco ordenar o caótico e o arbitrário,
esquadrinho as franjas eliminando à partida o absoluto
com vista à reavaliação dos valores.
o tempo vai-se gastando na extrema
involuntariedade do trajecto percorrido
na longa estrada para nenhures,
antecipando o vazio que aguarda impassível
no término desta rota.
desvio-me das vias com destino assinalado
e embrenho-me nos trilhos das florestas que as ladeiam.
imagino-me sempre um lobo a uivar solitário à lua, ou então
uma águia, tudo observando do seu posto nas falésias,
ou serei um corvo aguardando a carniça da batalha,
percorrendo o mundo, serei pensamento ou serei memória?
escrutinando a hipótese e a sua ausência.
sou o meu duplo incaracterístico perdido na aleatoriedade.
nesses dias que se mantêm inalterados,
exibindo os seus brilhos de demência,
perspectivo a ausência em que me debato
numa linha condutora de pensamento
em que busco ordenar o caótico e o arbitrário,
esquadrinho as franjas eliminando à partida o absoluto
com vista à reavaliação dos valores.
o tempo vai-se gastando na extrema
involuntariedade do trajecto percorrido
na longa estrada para nenhures,
antecipando o vazio que aguarda impassível
no término desta rota.
desvio-me das vias com destino assinalado
e embrenho-me nos trilhos das florestas que as ladeiam.
imagino-me sempre um lobo a uivar solitário à lua, ou então
uma águia, tudo observando do seu posto nas falésias,
ou serei um corvo aguardando a carniça da batalha,
percorrendo o mundo, serei pensamento ou serei memória?
quinta-feira, 10 de julho de 2008
saber em que mares navegamos quando,
a coberto da noite, nos lançamos à deriva
e procuramos em vão pelo nosso reflexo
no oceano em revolta.
procurar, por entre os murmúrios do vento,
pelo nosso nome sussurrado numa promessa
de um amanhã cuja aurora nunca chega.
querer encontrar em toda a arbitrariedade e em toda a dor
um fio condutor que justifique todos os dissabores
trazidos pela amargura de uma má escolha.
desesperar pelo vislumbre da luz de um farol
quando, na imensidão perdidos, ainda nos agarramos
a uma réstia de esperança de sermos conduzidos a bom porto.
a coberto da noite, nos lançamos à deriva
e procuramos em vão pelo nosso reflexo
no oceano em revolta.
procurar, por entre os murmúrios do vento,
pelo nosso nome sussurrado numa promessa
de um amanhã cuja aurora nunca chega.
querer encontrar em toda a arbitrariedade e em toda a dor
um fio condutor que justifique todos os dissabores
trazidos pela amargura de uma má escolha.
desesperar pelo vislumbre da luz de um farol
quando, na imensidão perdidos, ainda nos agarramos
a uma réstia de esperança de sermos conduzidos a bom porto.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
a noite chegou com os seus sortilégios,
mil encantos e promessas
de um novo amanhecer.
saltamos a questão, contornamos
o momento e escolhemos
as saídas transversais.
uns olham a aurora com esperança,
outros vêem a destruição
que a sua luz ilumina.
por vezes parece-me
que apenas eu fico retido
nesta noite sem saída.
encolho os ombros em resignação
(sorriso amargo a aflorar-me os lábios)
e prossigo na ameaça
de derrota.
mil encantos e promessas
de um novo amanhecer.
saltamos a questão, contornamos
o momento e escolhemos
as saídas transversais.
uns olham a aurora com esperança,
outros vêem a destruição
que a sua luz ilumina.
por vezes parece-me
que apenas eu fico retido
nesta noite sem saída.
encolho os ombros em resignação
(sorriso amargo a aflorar-me os lábios)
e prossigo na ameaça
de derrota.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
uma mancha indistinta
na voracidade dos dias.
uma mancha indistinta,
como algo pelo qual
passamos a grande velocidade,
incapazes de percepcionar
a sua verdadeira forma.
uma mancha indistinta,
sobre cuja memória
(quando ela ainda resta)
projectamos a nossa própria concepção
daquilo que ela seria.
uma mancha indistinta,
cujo verdadeiro sentido
entra no campo das hipóteses.
uma mancha indistinta,
que porventura não o seria,
se nos detivéssemos a observá-la
na voracidade dos dias.
na voracidade dos dias.
uma mancha indistinta,
como algo pelo qual
passamos a grande velocidade,
incapazes de percepcionar
a sua verdadeira forma.
uma mancha indistinta,
sobre cuja memória
(quando ela ainda resta)
projectamos a nossa própria concepção
daquilo que ela seria.
uma mancha indistinta,
cujo verdadeiro sentido
entra no campo das hipóteses.
uma mancha indistinta,
que porventura não o seria,
se nos detivéssemos a observá-la
na voracidade dos dias.
domingo, 29 de junho de 2008
sexta-feira, 27 de junho de 2008
uso o fio de ariadne para tecer a rede
em que me suporto e espalho nesta
obra translúcida os fragmentos que me formam.
não presto juramento a bandeiras, queimo-as
e à raça e género desafio preconceitos.
não me permito os dogmas de nenhuma religião,
não nasci para obedecer sem questionar.
prefiro a solidão das falésias ao
conforto do rebanho, e em tudo o que crio
tento projectar essa sombra.
esses puros momentos arrancados às garras
da mediocridade, do vazio do quotidiano
em que raiva, dor, desejo, paixão se erguem
num clamor mil vezes superior
ao murmúrio enlouquecedor das horas perdidas
a sobreviver. essas horas cuja mancha
indistinta em que se tornam jamais
permitem ver o meu contorno.
em que me suporto e espalho nesta
obra translúcida os fragmentos que me formam.
não presto juramento a bandeiras, queimo-as
e à raça e género desafio preconceitos.
não me permito os dogmas de nenhuma religião,
não nasci para obedecer sem questionar.
prefiro a solidão das falésias ao
conforto do rebanho, e em tudo o que crio
tento projectar essa sombra.
esses puros momentos arrancados às garras
da mediocridade, do vazio do quotidiano
em que raiva, dor, desejo, paixão se erguem
num clamor mil vezes superior
ao murmúrio enlouquecedor das horas perdidas
a sobreviver. essas horas cuja mancha
indistinta em que se tornam jamais
permitem ver o meu contorno.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
os murmúrios cessaram com a distância.
a língua rochosa que penetrava o mar,
e na qual eu me sentava, já não mais é
a mesma.
estou ausente da nocturna brisa de verão
que trazia o nevoeiro para me embrenhar
no cheiro a maresia, e sei
que a areia não guardou as minhas
pegadas.
já não almejo o infinito como destino
nem vejo os contornos de terras prometidas
a desenharem-se no horizonte.
lancei o meu desdém ao passado dourado
e olho com sarcasmo
o futuro radioso.
nesta caminhada solitária onde deixo
um trilho de cadáveres a assinalar
a passagem, sei que estarei
para sempre só no trajecto
da descoberta.
esta melancolia será sempre a barreira,
a muralha intransponível, a chaga,
do renegado.
vou deixando os símbolos nestes caminhos
calcorreados na constante incerteza,
carregando a dúvida como única
verdade.
que me acompanha na subida ao promontório?
- ascendo vazio de despojos, sem esplendor,
e na queda não possuo
nem lastro nem pára-quedas.
celebro-me a mim na ausência
de ser eu próprio, rei
sem coroa, divindade
sem discípulos.
e para onde conduz o trajecto
desta diáfana forma de vida
onde todos os destinos parecem rumar
em direcção ao esquecimento apenas
evitável por glórias vãs?...
a língua rochosa que penetrava o mar,
e na qual eu me sentava, já não mais é
a mesma.
estou ausente da nocturna brisa de verão
que trazia o nevoeiro para me embrenhar
no cheiro a maresia, e sei
que a areia não guardou as minhas
pegadas.
já não almejo o infinito como destino
nem vejo os contornos de terras prometidas
a desenharem-se no horizonte.
lancei o meu desdém ao passado dourado
e olho com sarcasmo
o futuro radioso.
nesta caminhada solitária onde deixo
um trilho de cadáveres a assinalar
a passagem, sei que estarei
para sempre só no trajecto
da descoberta.
esta melancolia será sempre a barreira,
a muralha intransponível, a chaga,
do renegado.
vou deixando os símbolos nestes caminhos
calcorreados na constante incerteza,
carregando a dúvida como única
verdade.
que me acompanha na subida ao promontório?
- ascendo vazio de despojos, sem esplendor,
e na queda não possuo
nem lastro nem pára-quedas.
celebro-me a mim na ausência
de ser eu próprio, rei
sem coroa, divindade
sem discípulos.
e para onde conduz o trajecto
desta diáfana forma de vida
onde todos os destinos parecem rumar
em direcção ao esquecimento apenas
evitável por glórias vãs?...
quinta-feira, 29 de maio de 2008
shhh!!! repousa
deixa que hipnos traga
o beijo do esquecimento,
o abandono, o repouso,
o breve instante
da queda.
deixa-te seduzir por esta
canção encantatória que
ao longe
as ondas sussurram,
ouve com atenção
e repara
no murmúrio lúgubre
das rochas acariciadas
pelo mar.
deixa-te levar
às longínquas costas
em busca
de novas fronteiras
para transpor.
empreende a viagem
ao fim da noite
numa caçada selvagem
nessa floresta onde és
caça e caçador.
ergue-te para a beleza
dos primeiros raios da aurora
a banharem
a tua redescoberta
nudez.
shhh!!! não acordes ainda
fica um pouco mais
resiste à tentação do despertar
e foge
em direcção ao último reduto.
shhh!!! não vás ainda
pelo menos aqui
ouve os deuses esquecidos
pronunciarem o teu nome
e quando partires
deixa uma única lágrima
rolar-te do rosto até
este solo
onde ainda buscas
refúgio...
(banda sonora: asva - "what you don't know is frontier")
deixa que hipnos traga
o beijo do esquecimento,
o abandono, o repouso,
o breve instante
da queda.
deixa-te seduzir por esta
canção encantatória que
ao longe
as ondas sussurram,
ouve com atenção
e repara
no murmúrio lúgubre
das rochas acariciadas
pelo mar.
deixa-te levar
às longínquas costas
em busca
de novas fronteiras
para transpor.
empreende a viagem
ao fim da noite
numa caçada selvagem
nessa floresta onde és
caça e caçador.
ergue-te para a beleza
dos primeiros raios da aurora
a banharem
a tua redescoberta
nudez.
shhh!!! não acordes ainda
fica um pouco mais
resiste à tentação do despertar
e foge
em direcção ao último reduto.
shhh!!! não vás ainda
pelo menos aqui
ouve os deuses esquecidos
pronunciarem o teu nome
e quando partires
deixa uma única lágrima
rolar-te do rosto até
este solo
onde ainda buscas
refúgio...
(banda sonora: asva - "what you don't know is frontier")
quarta-feira, 21 de maio de 2008
sei que não temes a chegada da noite
e o que ela traz. a hora
em que o teu rosto se transfigura em mil desejos
de uma liberdade indizível, e vagueias
como um réptil em busca de calor inebriado
pelo odor a sangue que paira no ar.
conheço esses anseios, dissimulados
sob a fina camada de brilho,
que aguardam o momento.
reconheço em ti esse ensejo de
à bruxuleante luz das chamas
matares o teu irmão quando devias
dilacerar a garganta do carcereiro.
sei que não entenderás esta dor
até à alvorada
quando os primeiros raios de sol
penetrarem a caverna
e chorares pela noite que ocultava
a tua bestialidade.
e o que ela traz. a hora
em que o teu rosto se transfigura em mil desejos
de uma liberdade indizível, e vagueias
como um réptil em busca de calor inebriado
pelo odor a sangue que paira no ar.
conheço esses anseios, dissimulados
sob a fina camada de brilho,
que aguardam o momento.
reconheço em ti esse ensejo de
à bruxuleante luz das chamas
matares o teu irmão quando devias
dilacerar a garganta do carcereiro.
sei que não entenderás esta dor
até à alvorada
quando os primeiros raios de sol
penetrarem a caverna
e chorares pela noite que ocultava
a tua bestialidade.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
reconheço essas asas que me exibes
com as suas plumas onde a melancolia
e o desejo se entrelaçam criando padrões
de sonho e desespero.
reconheço o desenho dessas feridas que me mostras
e sei em que falha geográfica as conquistaste,
em que condições, em que momentos, quando desejaste
que tudo cessasse num derradeiro beijo.
estas árduas conquistas, breves triunfos arrancados
às mãos de uma perpétua agonia, aqui e ali
entrecortada pelo som de gargalhadas que pulverizam
todas as ameaças de derrota.
sei onde foste buscar a força que te mantém
irredutível no voto de resistir contra toda
a ânsia de rendição à noite final.
caminho como os lobos, a uivar à lua os sonhos
que uma maldição se encarregou de negar
e observo furtivamente, olhos lampejando de ódio,
a realização do que me negam.
sou um deus solitário de uma religião esquecida
com uma raiva por saciar de mil holocaustos.
do tempo assisto à passagem, escondido, dissimulado,
aguardo, aguardo a chegada do grande cisma
quando o desespero fenderá as portas
da minha prisão e a ânsia de sangue
erguer a cabeça e vaguear livre.
com as suas plumas onde a melancolia
e o desejo se entrelaçam criando padrões
de sonho e desespero.
reconheço o desenho dessas feridas que me mostras
e sei em que falha geográfica as conquistaste,
em que condições, em que momentos, quando desejaste
que tudo cessasse num derradeiro beijo.
estas árduas conquistas, breves triunfos arrancados
às mãos de uma perpétua agonia, aqui e ali
entrecortada pelo som de gargalhadas que pulverizam
todas as ameaças de derrota.
sei onde foste buscar a força que te mantém
irredutível no voto de resistir contra toda
a ânsia de rendição à noite final.
caminho como os lobos, a uivar à lua os sonhos
que uma maldição se encarregou de negar
e observo furtivamente, olhos lampejando de ódio,
a realização do que me negam.
sou um deus solitário de uma religião esquecida
com uma raiva por saciar de mil holocaustos.
do tempo assisto à passagem, escondido, dissimulado,
aguardo, aguardo a chegada do grande cisma
quando o desespero fenderá as portas
da minha prisão e a ânsia de sangue
erguer a cabeça e vaguear livre.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
vagueamos na penumbra perseguidos
pela majestosa altivez do que fomos
projectando sombras cuja verdade
não aceitamos.
que tortuosos labirintos somos levados a percorrer
até aceitarmos, já sem resposta, a derrota infligida
de semblante baixo, sonhos abandonados, joelhos flectidos!
agora, que a resistência cede o seu lugar ao desespero,
e a noite vai chegando com o cansaço que se insinua,
repousa uma última vez junto ao umbral para o jardim
e chora perante a visão do inalcançavel.
partimos ao crepúsculo, cabeça baixa, enfileirados para o esquecimento.
quando chegar a aurora, as nossas pegadas na areia
já há muito terão sido apagadas pelo vento...
pela majestosa altivez do que fomos
projectando sombras cuja verdade
não aceitamos.
que tortuosos labirintos somos levados a percorrer
até aceitarmos, já sem resposta, a derrota infligida
de semblante baixo, sonhos abandonados, joelhos flectidos!
agora, que a resistência cede o seu lugar ao desespero,
e a noite vai chegando com o cansaço que se insinua,
repousa uma última vez junto ao umbral para o jardim
e chora perante a visão do inalcançavel.
partimos ao crepúsculo, cabeça baixa, enfileirados para o esquecimento.
quando chegar a aurora, as nossas pegadas na areia
já há muito terão sido apagadas pelo vento...
quarta-feira, 30 de abril de 2008
na ausência povoei o meu mundo com monstros,
habituei os olhos à escuridão, especializei-me
na construção das muralhas desta cidadela
que jamais alguém ousa violar.
a única porta para o refúgio dirige o olhar
para o abismo em cujo promontório aguardo
a chegada do seu anjo, observando
atentamente a negrura imóvel na esperança
de ver a sua chama irromper.
mas as profundezas repousam na sua imobilidade alheias
a quaisquer anseios ou sonhos.
resta o bálsamo da misantropia, envenenado como poucos,
como companhia nestas reflexões nocturnas.
viro as costas à noite abissal, furioso
com a solidão e o silêncio que assombram
os corredores que percorro até ao átrio da minha fortaleza.
ensandecido derrubo a muralha e constato
que há muito me tornei invisível...
habituei os olhos à escuridão, especializei-me
na construção das muralhas desta cidadela
que jamais alguém ousa violar.
a única porta para o refúgio dirige o olhar
para o abismo em cujo promontório aguardo
a chegada do seu anjo, observando
atentamente a negrura imóvel na esperança
de ver a sua chama irromper.
mas as profundezas repousam na sua imobilidade alheias
a quaisquer anseios ou sonhos.
resta o bálsamo da misantropia, envenenado como poucos,
como companhia nestas reflexões nocturnas.
viro as costas à noite abissal, furioso
com a solidão e o silêncio que assombram
os corredores que percorro até ao átrio da minha fortaleza.
ensandecido derrubo a muralha e constato
que há muito me tornei invisível...
terça-feira, 22 de abril de 2008
um cheiro a tabaco e café a exalar
de bocas alheias, misturado
com o pertinente odor de suor,
ressequido vezes sem conta,
assalta-me as narinas ao chegar.
dentro de breves momentos o ruído
das máquinas em marcha tornar-se-á presente
até ao ponto de se fundir num murmúrio
constante, que nos entorpece até parecer
que toda a beleza se pôs em fuga
e que já nem a desesperada centelha,
que se tenta orientar neste labirinto, consegue
encontrar uma cadência à qual se agarrar,
como se a música que ainda conseguisse criar,
apesar da sua desarmonia, fosse
uma réstia de esperança no meio
da fealdade...
de bocas alheias, misturado
com o pertinente odor de suor,
ressequido vezes sem conta,
assalta-me as narinas ao chegar.
dentro de breves momentos o ruído
das máquinas em marcha tornar-se-á presente
até ao ponto de se fundir num murmúrio
constante, que nos entorpece até parecer
que toda a beleza se pôs em fuga
e que já nem a desesperada centelha,
que se tenta orientar neste labirinto, consegue
encontrar uma cadência à qual se agarrar,
como se a música que ainda conseguisse criar,
apesar da sua desarmonia, fosse
uma réstia de esperança no meio
da fealdade...
quarta-feira, 16 de abril de 2008
o desassossego visitou-te à noite
enquanto te detinhas nos textos passados
cujas palavras, arrancadas à vida,
repousam agora no templo do esquecimento.
os olhos estavam húmidos no regresso à cama
traindo a mágoa que te tinha assaltado
ao releres os relatos das desventurosas viagens.
no dia seguinte uma fúria ferida anunciou-se
ao reveres uma vez mais a obra que queres revelar.
juraste a ti mesmo que irias seguir em frente
não te detendo, não cedendo e, algures,
um riso escarninho recordou-te
o restante dos teus sonhos.
enquanto te detinhas nos textos passados
cujas palavras, arrancadas à vida,
repousam agora no templo do esquecimento.
os olhos estavam húmidos no regresso à cama
traindo a mágoa que te tinha assaltado
ao releres os relatos das desventurosas viagens.
no dia seguinte uma fúria ferida anunciou-se
ao reveres uma vez mais a obra que queres revelar.
juraste a ti mesmo que irias seguir em frente
não te detendo, não cedendo e, algures,
um riso escarninho recordou-te
o restante dos teus sonhos.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
de olhos no mar surgiste-me tu
pela primeira vez. talvez não fosses tu,
mas eras tu.
contemplei a tua imagem até ela
desaparecer, e depois esqueci-te,
durante anos, até que essa
determinada teimosia se fez de novo anunciar
com um riso capaz de estilhaçar
quaisquer trevas que assomem.
vieste materializada num sonho, com estrelas
no teu olhar
e chegaste ávida pela vida com a exigência
de uma rendição impossível
de negar.
eixo do mundo, epicentro
de um abalo
de sensações que julguei
jamais vir a sentir...
pela primeira vez. talvez não fosses tu,
mas eras tu.
contemplei a tua imagem até ela
desaparecer, e depois esqueci-te,
durante anos, até que essa
determinada teimosia se fez de novo anunciar
com um riso capaz de estilhaçar
quaisquer trevas que assomem.
vieste materializada num sonho, com estrelas
no teu olhar
e chegaste ávida pela vida com a exigência
de uma rendição impossível
de negar.
eixo do mundo, epicentro
de um abalo
de sensações que julguei
jamais vir a sentir...
quarta-feira, 9 de abril de 2008
lembras-te das visões, dos apelos,
quando o mar sussurrava o teu nome
na brisa nocturna?
onde está agora essa voz que te segredava
mistérios e te revelava destinos fabulosos,
aquele murmúrio que te libertava
embalando-te na imensidão do vazio?
essa melancolia que carregas, em quantas marés
foi ela baptizada? consegues recordar-te
da primeira vez em que os teus olhos adquiriram
esse ar sonhador quando fitam o infinito?
e se as tuas emoções correm como a água
mas sentes-te preso, ansiando, num charco estagnado,
quando deixas o ímpeto das ondas conduzir-te
ao turbilhão para o qual nasceste?...
quando o mar sussurrava o teu nome
na brisa nocturna?
onde está agora essa voz que te segredava
mistérios e te revelava destinos fabulosos,
aquele murmúrio que te libertava
embalando-te na imensidão do vazio?
essa melancolia que carregas, em quantas marés
foi ela baptizada? consegues recordar-te
da primeira vez em que os teus olhos adquiriram
esse ar sonhador quando fitam o infinito?
e se as tuas emoções correm como a água
mas sentes-te preso, ansiando, num charco estagnado,
quando deixas o ímpeto das ondas conduzir-te
ao turbilhão para o qual nasceste?...
terça-feira, 1 de abril de 2008
um vazio enorme estende-se perante os olhos,
e sob os pés
a frieza áspera do solo faz-se sentir.
resta a queda, o impacto profundo, o estilhaçar
da ilusória armadura.
o trajecto até ao destino desenhado
pelas cicatrizes no corpo.
esse mapa que aguarda ganhar asas
para se elevar sobre esta terra de ninguém.
a fenda majestosa engole o corpo na descida
num sorriso de escarpas afiadas.
do confronto do uno com a imensidão
surge o nulo.
num virginal estado de sensações,
na sofreguidão de tudo provar.
por entre contornos de sangue a liberdade
abre-se de par em par
e ruma-se às estrelas...
e sob os pés
a frieza áspera do solo faz-se sentir.
resta a queda, o impacto profundo, o estilhaçar
da ilusória armadura.
o trajecto até ao destino desenhado
pelas cicatrizes no corpo.
esse mapa que aguarda ganhar asas
para se elevar sobre esta terra de ninguém.
a fenda majestosa engole o corpo na descida
num sorriso de escarpas afiadas.
do confronto do uno com a imensidão
surge o nulo.
num virginal estado de sensações,
na sofreguidão de tudo provar.
por entre contornos de sangue a liberdade
abre-se de par em par
e ruma-se às estrelas...
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